Esta tarefa-pesquisa foi realizada pela escrava klarissa { K@ }, ordenada pela Sub de Vermelho Klara { K@ } e pela Sub de Laranja Kalía { K@ }, sob o meu comando. A ideia é contar a história de uma das peças-fetiches mais glamorosas do universo BDSM. Boa leitura!  

Símbolo da Era Vitoriana, o corset surgiu com a função de elevar o tronco e, mais tarde, foi adotado também para afinar a cintura, o que impunha grandes sacrifícios às mulheres. Hoje é um elemento especial na cena erótica-fetichista

 

 

  

 

Tá certo que nós, submissas, gostamos de umas amarrações bem-feitas, de acessórios em metal, cordas, cadarços, ilhoses, enfim, suportamos e até agradecemos umas horinhas de sofrimento consentido. Mas tight lacing não é pra qualquer uma. E posso apostar que poucas masoquistas aturam por muito tempo essa tortura que recebe o excitante nome de "laço apertado".

 

É impossível não associar o tight lacing a algumas "brincadeiras" bem conhecidas. Remete à imobilização do bondage, à privação de sentidos e a outras práticas familiares. Mas é preciso separar as coisas: ainda não estamos falando de dor e prazer, mas, sim, de um método polêmico, porém eficaz, para perder alguns centímetros de cintura por meio do uso diário do corset ou corselete ou ainda espartilho, que alguns diferenciam como roupa de baixo. A peça é feita sob medida, ou melhor, bem abaixo da medida a que se destina, e tem a função de estrangular progressivamente a região da cintura até que a mocinha adquira o desenho de ampulheta.

 

 

Isso ocorre porque o corset, à medida em que vai sendo tracionado por meio dos cordões nas costas, fecha "gentilmente" as costelas flutuantes (as duas últimas, chamadas assim por não se juntarem à frente como as demais), redefinindo o formato da corpo. Garantem as adeptas (elas existem e são muitas) que é possível perder de seis a dez centímetros com o uso diário da peça por um período de oito horas, de quatro a oito meses. Essa oferta tentadora é combatida, claro, pelos especialistas em anatomia humana, que apontam uma lista de riscos - de alterações na dinâmica respiratória a varizes e trombose. E quem liga pra esses detalhes quando o que vê no espelho é uma imagem pra lá de feminina e sexy?

 

 

 

NARCISAS E MASOCAS ADORAM

Como procedimento estético, o tight lacing seduz muito mais as narcisas do que as masocas. Mas, também para nós que apreciamos várias modalidades de castigo, é difícil desprezar a beleza sádica de um corset. Símbolo da Era Vitoriana (1837 - 1901), a peça foi e voltou à moda várias vezes e hoje, em pleno século 21, continua enlaçando cinturas famosas e anônimas, em versões assinadas por estilistas importantes que as vendem por pequenas fortunas.

 

Cinturas estranguladas pelos corsets marcaram a estética feminina na Era Vitoriana

 

Não é pra menos. Camadas e mais camadas de tecido resistente, reforços de alumínio ou aço inoxidável, ilhoses e amarrações austeras são lindamente camuflados com rendas, pedrarias, bordados, aplicações, joias... Uau! Uma combinação provocante de requinte e maldade que algumas mulheres exploram com bem-vinda audácia. Definitivamente, não se trata de uma lingerie e, menos ainda, underwear.

 

Nem precisamos recorrer à imagem de Madonna, Beyonce, Lady Gaga, Angelina Jolie e outros ícones pop deliciosamente amarradas em seus corsets para constatar que a peça, que já foi considerada símbolo da opressão feminina, continua atual, independentemente do nível de emancipação de suas adeptas.

 

Madonna vestindo o famoso corset desenhado por Jean Paul-Gaultier

 

 

 

RAINHAS E SUBMISSAS NÃO USAM. PORTAM

 

Na cena BDSM, o corset nunca saiu de moda. Mais: muito provavelmente é o ambiente em que a peça foi melhor aproveitada, não mais para reposicionar as tais costelas flutuantes e adquirir a curvas acentuadas, mas para turbinar as fantasias eróticas. Rainhas e submissas usam e abusam dos corsets a ponto de torná-lo o item fetichista mais glamoroso da estética sadomasoquista.

 

Na cena SM, o corset emoldura a nudez e se atrela a objetos ousados como coleira e algemas

 

Seja em pé com um chicote nas mãos ou de joelhos com as mãos presas, uma mulher SM não usa um corset. Ela o porta. Numa interpretação pessoal, é nesse detalhe que nós, submissas ou rainhas, nos diferenciamos de outros grupos que também têm o corset como peça-símbolo da indumentária.

 

As curvilíneas e sempre atuais pin-ups, que se inspiram no padrão de sensualidade de suas antecessoras das décadas de 1940 e 1950, entre elas a louca Bettie Page, usam o corset como um elemento de destaque num conjunto que tem ainda o batom-cereja, os olhos delineados, a saia rodada abaixo do joelho e o ar dubiamente comportado. O corset, portanto, faz parte de uma composição.

 

Bettie Page, a rainha das pin-ups em fantasia de dominação feminina

 

A peça marca também o visual de outra diva: a rainha do burlesco Dita von Teese. A atriz e modelo norte-americana explora tão bem a sensualidade do acessório que parece ter nascida vestida em corset e estar sempre pronta para uma cena SM.

 

Dita von Teese em cena SM vestindo um de seus muitos corsets

 

E no guarda-roupa lúgubre das góticas encontram-se outros tantos modelos. Aqui, a peça é inserida num contexto notívago, entre sombrio e místico, ou simplesmente artístico-urbano. Nestes exemplos, o espartilho informa o estilo de quem está usando, junto com outros indicadores.

 

No BDSM, o jogo erótico arrojado sempre dá outra estatura ao corset. Ele compõe a nudez e se atrela a elementos muito mais corajosos. Coleira, mordaça, venda, chicote, algemas... Ainda numa interpretação pessoal, a peça, cujo comprimento pode encobrir o quadril, é um ornamento perfeito a outro símbolo da estética sadomasoquista: a virilha inteiramente depilada. Daí, usar, ou melhor, portar um deles durante uma sessão é muito mais do que compor um visual.

  

 

TELAS E PASSARELAS

O fato é o que corset nunca foi uma peça neutra. Pelo contrário, sempre esteve acompanhado de uma pitada de provocação. Na moda, a papisa Coco Chanel, lá pelos anos 20, forneceu um pouco mais de oxigênio para as mulheres, com suas criações confortáveis que valorizavam o bem-estar e a elegância, colocando as curvas acentuadas dos corset nas trevas. Fez muito bem ela, pois nos anos 20 as mulheres já estavam saindo de casa para trabalhar e, nesse caso, era bom respirar normalmente.

 

O estilista Christian Dior é um responsáveis por recolocar o corset nas passarelas da alta-costura

 

Mais tarde, na década de 1950, Christian Dior, cansado da penúria imposta pela Segunda Guerra Mundial, quando até o metal das barbatanas do espartilho foi reivindicado pelos Estados Unidos para ser empregado em objetos mais úteis, resgatou o corset do limbo e trouxe de volta as curvas femininas que andavam escondidas. 

 

Desfile de Bottega Veneta: espartilho sobreposto à lingerie

 

E assim tem sido desde então. De tempos em tempos, a peça retorna à passarela, sempre à mostra e nunca escondida como roupa íntima. Galiano, Bottega Veneta, Dolce & Gabana, Vivienne Westwood, Jean Paul Gaultier são outros nomes da alta costura que apostaram na sensualidade do espartilho sem dar a mínima para o que pensa o mundo sobre conforto e elegância. E não é raro ver românticas noivas subindo ao altar literalmente amarradas à moda vitoriana. 

 

Dolce & Gabbana, grife usou e abusou glamour dos corsets

 

O cinema é outra arte que sabe usar muito bem o corset. Uma das cenas mais famosas do clássico E o Vento Levou (1939), do diretor Victor Fleming, mostra Vivien Leigh sendo auxiliada por Hattie MacDaniel na complicada tarefa de vestir o espartilho. Em Burlesque (2010), musical de Steve Antin, com Christina Aguilera e Cher, a peça também está presente com destaque. Pouco antes, outro musical moderno, Moulin Rouge (2001), do diretor Baz Luhmann, com Nicole Kidmam e Ewan McGregor, já havia exibido com bom gosto a feminilidade do acessório.

 

Vivien Leigh e Hattie MacDaniel às voltas com o corset, em cena de E o Vento Levou

  

 

POR AQUI...

No Brasil, duas grifes se destacam na confecção dessas peças. A primeira é Madame Sher, criada pela corsetière Leandra Rios, que tem entre as clientes Ivete Sangalo, Fernanda Young e Adriane Galisteu. A marca, especializada em tight lacing, confecciona ainda modelos para festa. A outra é a Fetische Furrys, da estilista Lili Angelika, que também oferece modelos para festa e prática de tight lacing, além de disciplinadores de quadril, modelo que vai até o cóccix, destinado a reduzir gorduras. As peças são acompanhadas de manual que ensina como usar e alerta sobre os eventuais riscos de uso incorreto.

 

Leandra Rios, responsável pela marca brasileira de corselets Madame Sher

 

 

 

CORSET AO LONGO DA HISTÓRIA

  • Século 17: um acessório rudimentar era usado para dar suporte aos seios, manter o tronco ereto e alinhar a postura. 
  • Século 18: a peça já apresentava seu primeiro processo de evolução, com estruturas flexíveis e ilhoses para a passagem dos cordões.
  • Século 19: era usado tão apertado que as mulheres mal conseguiam respirar. A prática do tight lacing, destinada a afinar a cintura, começava a ser difundida.
  • Século 20 começou a perder espaço para o recém-inventado sutiã; um declínio amenizado mais tarde pela alta-costura que o trouxe de volta às passarelas.
  • Século 21: reina glamoroso no guarda-roupa de pin-ups, góticas e adeptas do SM como peça-fetiche com conotação erótica.

 

 

 

 

VOCÊ QUER MESMO SABER ISSO?

 

Ilustração mostra o efeito do tight lacing no corpo feminino: orgãos interno comprimidos.

 

 

Especialistas dizem o seguinte sobre o tight lacing: a pressão excessiva no abdome comprime os órgãos internos e isso eleva a pressão venosa causando varizes e inchaço nas pernas, quadro que pode levar a uma trombose. Essa pressão interna também eleva o diafragma e altera a dinâmica respiratória que, em casos mais agudos, pode causar atelectasia, o acúmulo de secreções por conta da diminuição da ventilação pulmonar. Ah, sim: as costelas flutuantes são "soltas" justamente para não comprimirem o abdome.

 

Fontes: youtube, MadameMesher e FetisheFurrys


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