Trabalho realizado sob ordens do Mestre Três Vezes Poderoso  – MESTRE T:V:P:

pela escrava kalía | K@ | EM 24/02/2007 

 

INTRODUÇÃO 

“... alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os frios e tolos moralistas são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que vos devem conduzir à felicidade”.

(Marques de Sade- Filosofia da Alcova:1999) 

 

 

Este trabalho  foi desenvolvido por mim com o objetivo de oportunizar aquisição de conhecimentos, a quem possa interessar, sobre o controverso tema libertinagem. O texto que ora se apresenta não se caracteriza como pesquisa científica, mas traz apenas algumas abordagens, dada a complexidade e a polêmica que a temática suscita. Embora o texto traga conceitos e convenções que fogem ao meu princípio de formação, na condição de submissa levei adiante esta tarefa buscando apresentar ao leitor, um texto numa linguagem clara e acessível. 

 

Não tive o propósito de aprofundar neste assunto, pois, para tanto, demandaria um estudo mais minucioso e detalhado, que contraria as ordens que recebi. 

 

Para fazer esse trabalho consultei material bibliográfico, obras de Marques de Sade, artigos publicados em periódicos; fiz consultas virtuais em sites e blogs que discutem o tema e também realizei entrevistas virtuais com pessoas que praticam sadomasoquismo nas salas de bate-papo. 

 

 

LIBERTINAGEM: O CONCEITO E CONTRIBUIÇÕES DE MARQUÊS DE SADE

 

“A minha maneira de pensar, você diz, não pode ser aprovada. E que importa? Bem idiota é aquele que adota uma maneira de pensar para os outros. Não foi a minha maneira de pensar que provocou a minha desgraça. Foi a maneira de pensar dos outros”. (Marquês de Sade)

 

O dicionário Houaiss apresenta o conceito de libertinagem como licenciosidade de costume, conduta de pessoa que se entrega imoderadamente a prazeres sexuais.

 

Não é possível falar de libertinagem, sobretudo no contexto da vivência do BDSM sem passar por Marquês de Sade. Não que ele tenha sido o único a falar sobre o assunto, mas a minha análise baseia-se nele por ter sido, sem sombra de dúvida, o ícone de referência sobre o tema. Autores tais como, Georges Bataille, Maurice Blanchot, e outros também abordam o assunto, no entanto, Sade teve maior proeminência e os apontamentos feitos por ele dão o suporte necessário para sustentar as minhas argumentações. 

 

A ideia de libertinagem manifestou-se com força no final do século XVIII principalmente através da literatura, notadamente na França, que produziu os autores mais importantes do gênero, entre eles, Marquês de Sade. O gênero literário libertino, embora se expresse mais carregadamente através do sexo livre, tem como fundo o questionamento moral que abalava as estruturas do pensamento europeu da época; a Revolução Francesa triunfava e o catolicismo perdia cada vez mais espaço político e filosófico; o libertino, então, ao eleger como objetivo da sua vida o seu prazer pessoal, escolher romper com toda a estrutura moral à sua volta; a literatura sadeana tratava de temas violentos, dentro de uma filosofia em que a busca do prazer pessoal envolvem a aniquilação do outro e a renegação de toda estrutura moral vigente.

 

Donatien Alphonse François – Marquês de Sade era parisiense que viveu do século XVII e XIX foi amado por muitos e odiado por tantos, pela irreverência de seus atos e escritos. Ele chocou sobremaneira os preceitos de sua época, quando propunha jogar por terra todo o princípio do moralismo e mediocridade preconizados pela Igreja e pela sociedade tradicional de seu tempo. Este foi seu objetivo: chocar com a finalidade de romper as barreiras da hipocrisia, que para ele só assim seria possível ser livre.

 

Segundo Vigário (2011) Sade foi muito mais que um devasso e a sua obra vai muito para lá da novela pornográfica a que o senso comum o associou. O seu pensamento filosófico parece ter sido uma espécie de resposta à confiança de Rousseau na bondade natural da humanidade. Pelo contrário, para Sade, o homem realiza-se na exploração e na negação do outro. Para ele o objetivo da vida é o prazer, mas retira-se tanto mais prazer quanto mais se aniquila a vida. Assim, o impulso vital que nos agarra à vida é o mesmo que anseia pela sua destruição. É uma espécie de paradoxo vital.

 

Os princípios norteadores de sua filosofia, escrita durante o período que esteve recluso, em cárcere privado nenhum Deus, moralidade, afeição e esperança deveriam existir, vislumbrava a extinção da raça humana num grande frenesi erótico de puro deleite terminal. O homicídio, a sodomia, homossexualismo, incesto, bizarrices, torturas, etc., seriam os meios para a obtenção desse fim. Menos que a perversão, o ponto principal da obra sadeana é o ateísmo, ele considera como único deus a natureza vista como essencial para a manutenção do equilíbrio.

 

A Providência para ele não existe e se existe é malévola e premia os devassos porque o mundo é feito de devassos e não de santos. Querer ser santo num universo canalha é ficar em desvantagem.

 

Seus escritos escandalizaram não só na sua época como até hoje. Seus personagens sempre depravados usavam a prática sexual como meio de repudiar a ordem política e religiosa de seu país em nome da busca por liberdade. “A filosofia da alcova” uma de suas obras mais famosas faz uma apologia à liberdade individual. Nela Sade delicia-se com toda espécie de crueldade sexual, justificando o vício e a brutalidade sob a alegação de que tal proceder é um ato de rebeldia e oposição que oprime e mata a alma. 

 

Tais práticas consolidam a libertação plena do prazer desdenhando de toda e qualquer restrição social. Os crimes praticados condenáveis pela sociedade são justificáveis em nome do prazer, da luxúria, da crueldade, da perversão e da tortura. 

 

 

PRINCÍPIOS QUE, SEGUNDO SADE, OBSTRUI A PRÁTICA DA LIBERTINAGEM 

 

“A volúpia ensina o libertino, esse é o único modo que a natureza oferece para atenuar o sofrimento humano”. (Eliane Moraes: 2006)

 

Para Sade alguns princípios defendidos pela sociedade tradicional e puritana atrapalham as práticas libertinas, portanto, devem ser eliminados tais como: 

 

a) Costumes: para Sade os costumes se fundamentam em: 1°) Aqueles que sua consciência e sua credulidade lhe impõem relativamente ao Ser Supremo; 2°) Aqueles que ele é obrigado a cumprir relativamente a seus irmãos; 3°) Enfim, aqueles que se relacionam consigo mesmo.

 

b) Morte: o único delito que o homem pode cometer é o suicídio que para Sade é uma imbecilidade a transformação do suicídio em crime, pois seria um ato contra a liberdade do indivíduo.

 

c) Destruição da humanidade: considera a extinção da espécie humana como uma restituição à natureza pelo desgaste que ela teve com a procriação. “a inteira destruição da nossa espécie, restituindo à natureza a faculdade criadora que ela dispendeu conosco, lhe daria uma energia que lhe tiramos com a propagação da espécie”(Filosofia da Alvoca, p, 32).

 

d) Virtudes: sentimentos baixos e desprezíveis que devem ser eliminados: 

 

Eugênia, nunca seja vítima dessas mulheres que se dizem virtuosas. Talvez elas não sirvam às mesmas paixões que nós, servem, porém, a paixões mais desprezíveis e mais baixas; a ambição, o orgulho, os interesses particulares. (...) Elas obedecem apenas, cegamente, o amor de si próprias... Creio, pois, que entre essas duas paixões uma não pode ser inferior a outra, escutemos a voz da natureza que tem sempre razão, é a única. que vem do fundo do nosso ser, enquanto a outra é bobagem e preconceito (SADE: 1999, p. 14).

 

e) Os crimes: podem e devem ser cometidos em nome da promiscuidade, da libertinagem e do prazer como mostra o personagem Dolmancé na obra Filosofia da Alcova de Sade.

 

(...)  sendo a destruição uma das primeiras leis da natureza, tudo que destrói não pode ser crime. O que tão bem sirva à natureza não a pode ofender. Aliás, essa destruição que lisonjeia o homem é uma quimera, o assassínio não é destruição; o assassino apenas varia a forma, faz voltar à natureza elementos dos quais ela se serve para recompensar outros seres. Aquele que mata prepara um gozo para a natureza, dando-lhe ocasião de criar; esses materiais, a natureza os emprega incontinenti e o assassino adquire um mérito a mais aos olhos desse agente universal. Só o nosso orgulho erigiu o assassinato em crime. (SADE: 1999, p. 25)

 

f) Fidelidade: prática condenável porque cerceia a licenciosidade que é o tempo todo fomentada. Incentiva a infidelidade no casamento em nome do prazer e da promiscuidade:

 

Os vínculos idiotas do casamento não devem impedir a mulher de se entregar a todos os amores. (...) A mulher tem que foder, deve foder impunemente. A glória passageira da boa fama e uma frívola esperança religiosa não podem compensá-la do sacrifício da renúncia. Virtude e vício têm o mesmo cheiro no caixão. Ao cabo de poucos anos, quem se lembra do vício ou da virtude? A desgraça que viveu sem prazer, expira sem recompensas. (idem p. 21)

 

Na ética sadeana o sujeito escolhe o que é necessário para a realização de seus prazeres. O que causará maior impacto para o gozo do libertino será aquilo que irá transgredir as normas que são impostas pelos dogmas.

 

Libertinagem traduz-se então na licenciosidade de costume em que os prazeres sexuais são praticados sem limites. O libertino é aquele que leva uma vida dissoluta tanto do ponto de vista moral como nas práticas sexuais. Ele refuta todos os dogmas e crenças, sobretudo no que diz respeito à religião e às suas práticas ritualísticas. 

 

Contudo, as práticas anunciadas como o melhor da libertinagem para Sade são práticas contrárias a qualquer convenção social, moral, religiosa, ou política: sodomia, sacrilégios, crueldades, adultério, incesto, bestialidades, homossexualismo, entre outras...

 

A relação entre erotismo e liberdade estava no centro das convicções de Sade. O amor não é aceito entre seus membros, pois o ciúme, e outros sentimentos de pertença são absolutamente proibidos, umas vez que eles prejudicariam o ideal de libertinagem. Uma libertinagem, aliás, com limites, que restringe as práticas sadomasoquistas – ou as "paixões ferozes", com práticas de orgias e concupiscências. Como ato violento somente o açoite aplicado nas nádegas é livremente aceito entre todos os membros.

 

Para abandonar seus erros (morais, religiosos e de costumes) e conhecer a verdade deve o libertino, portanto, aferrar-se ao seu próprio corpo e esquecer o absurdo sistema que defende a existência da alma, pois nada há além de nossos corpos. Qualquer outra suposta realidade metafísica é fruto da "política", do "terror" e da "ignorância".

 

O homem deve se sentir livre para satisfazer o apelo de suas pulsões sexuais, a fim de que elas não se prendam aos padrões de uma sociedade injusta e despótica. As fantasias da libido prevalecem e tudo é permitido de modo a defender os caprichos dos libertinos.

 

 

A LIBERTINAGEM E O BDSM NA OPINIÃO DAS PESSOAS.

 

Para aclarar melhor o conceito e dar maior legitimidade ao trabalho achei por bem coletar opinião de pessoas. Organizei minha coleta de modo colher opiniões de pessoas que frequentam salas de chat - sadomasoquismo, portanto que são praticantes ou simpatizantes de BDSM. 

 

Procurei entender o que pensam as pessoas do meio sobre libertinagem e sua relação com o BDSM. Para minha surpresa, as opiniões confirmaram que um número expressivo de pessoas não sabem o que é libertinagem, e muito menos souberam explicar em que medida ela está, ou não, associada ao BDSM. Simplesmente ignoram o assunto.

 

Percebi pela forma que as pessoas manifestaram suas opiniões, que existe um preconceito e rejeição consideráveis em relação à libertinagem, seja por consciência ou desconhecimento do assunto. Alguns apresentaram argumentos pouco sólidos sem ter noção do que estavam falando. Porém, muitas pessoas demonstraram ter conhecimento e mesmo as que não apresentaram ter uma noção mais lúcida do assunto, conseguiram se expressar de forma adequada. 

 

Destaco que a maioria dos participantes mais “resistentes” eram homens e Dominadores. E foram eles também que demonstraram conhecer menos sobre o assunto do que as mulheres, sendo elas dominadoras, submissas, ou switchers. Embora eu tivesse instigado a participação de homens submissos, não obtive resposta de nenhum deles, infelizmente. 

 

Não existe um meio mais propício para se fazer uma pesquisa desta natureza do que as de chat da UOL – “sala 1 - São Paulo”. Para dar maior credibilidade à pesquisa entrei com um nick anônimo, com a permissão do meu Dono, para que não houvesse nenhum tipo de resistência de participação das pessoas por saberem quem eu sou. As minhas perguntas foram: O que é libertinagem? É possível associar a libertinagem ao BDSM? De que forma? Você se considera um (a) libertino (a)? 

 

As participações no chat, a princípio tímidas, foram se tornando significativas até que a conversa culminou num acalorado debate. Achei interessante a diversidade de opiniões que apareceram. Exponho em seguida alguns trechos das respostas que expressam a opinião dos participantes, uns com maior lucidez e noção de conhecimento e outros que tiveram dificuldade, preconceito, ou desconhecimento.

 

“Libertinagem é devassidão... o abuso da sexualidade tendendo para um abismo da falta de sentimentos... passa pela imoralidade... e acaba levando a uma depressão ao final exatamente pela falta de amor” (Dominador 4). 

 

Para o dominador 4 a libertinagem é vista como falta de sentimentos e uso indiscriminado da sexualidade, ou seja, vista como uma prática imoral e descabida aos princípios do BDSM. Após a opinião de outras pessoas na sala ele acrescentou “mas isso depende de como cada um crê que seja a libertinagem”. Outras considerações:

 

“Não acho que sejam atos libertinos o que se pratica em BDSM! Libertinagem é desregramento de costumes. Por isso nas praticas de BDSM não entra como libertinagem” (Dominador 6).

  

“Eu sou contra a libertinagem e a favor do amor entre o casal. Eu acho que o SM é muito mais bonito quando existe amor e fidelidade entre o casal. Não curto libertinagem acho um abismo sem volta. Essas pessoas são vazias...” (Dominador 1).

 

Esses comentários denotam uma visão pejorativa de libertinagem, associada a desregramento de costumes, “coisa errada”, vazia, desprovida de sentimento e sinônimo de infidelidade e transgressão, como se a libertinagem “sujasse” uma relação BDSM. 

 

Algumas pessoas, assíduas no meio tanto virtual e real, não sabiam expressar sobre libertinagem e muito menos associá-la ao BDSM. Mostraram-se confusas, perdiam o foco, como diz um dos participantes: “Não é possível entender plenamente o significado de um termo se cada um associa o que quiser, você acaba falando de outras coisas, portanto, não exatamente da libertinagem...” (Dominador 2):

 

Libertinagem é o mesmo que poder fazer tudo... sem limites....sem regras....sem limites...aonde o que manda é a sua vontade. Libertinos não medem conseqüências de seus atos. Só não entendi o que tem haver com SM, aonde você esta querendo chegar? (Dominador 7).

 

Perguntei a esse dominador se uma pessoa que pratica o SM sério nunca poderia ser um libertino. Ele respondeu: “Poder pode, em princípio todos podem dar vazão ao egocentrismo e viver sem limites”. Completamente sem sentido!

 

Percebe-se uma confusão de ideias, argumentos infundados, embora não exista propriamente uma resistência ao conceito e sua prática. 

 

No entanto, alguns depoimentos foram elucidativos e contribuíram sobremaneira para fundamentar a análise deste trabalho, tais como:

 

Essa palavra é meio perigosa. Pode ser interpretada de diferentes formas, mesmo no BDSM. Mas há uma libertinagem sadia, que significa não se prender a certos dogmas... Onde as pessoas podem viver suas fantasias com liberdade (Switcher 4).

 

A libertinagem está dentro de cada um e ela existe mesmo que seja com outra pessoa ou somente no pensamento... Quando temos coragem de colocar em prática aquilo que já é teoria dentro de nós e que ha tempos estão sentindo... é ai nesse ponto que dizem ser libertinas ou libertinos os que colocam em práticas seus desejos mais secretos (submissa 2).

 

Penso que a libertinagem é dar as costas a certos padrões morais vigentes. Como a fidelidade, por exemplo. Ou manter relações sexuais atrelados ao afeto. Claro que podemos estender esse conceito, ou melhor, devemos. Portanto, o libertino, para ser assim chamado, tem que ser contextualizado no tempo/espaço (submissa 6). 

 

 

 

LIBERTINAGEM NOS DIAS DE HOJE

 

A voz de nossas paixões é a única verdade que pode nos tornar felizes. (Marquês de Sade)

 

O que dizer nos dias de hoje uma prática libertina? Que lógica deve pautar a conduta de vida de um libertino do nosso tempo?  Muitos praticam atos em nome da libertinagem e nada têm a ver com ela. A chamada libertinagem de ocasião ou circunstancial. Aqui se pratica libertinagem, lá não! Existem mesmo libertinos que encaram valores morais e costumes e que são desprovidos de preconceitos?

 

Nem toda prática BDSM deve ser uma prática libertina e muito menos nem todas as pessoas devem empunhar bandeiras se autodenominando libertinos. Não é possível também, nos dias de hoje, tomar ao pé da letra as proposições de Sade sobre, religião, moral, costumes, preceitos e definições por ele elaborados. 

 

 

O que é preciso é que cada um viva de acordo com seus princípios íntimos, e defenda e viva aquilo que realmente acredita. Que não usemos de falso moralismo, nem de hipocrisia em relação às pessoas com as quais convivemos e quanto às ideias que defendemos.

 

Se existem hoje tantos relacionamentos malfadados é porque se prega uma coisa e se vive outra. Numa relação onde se prima por práticas libertinas de uma das partes não desempenha o seu papel é porque o discurso não condiz com a prática. Engana-se em princípio a si mesmo e depois ao parceiro. 

 

Infelizmente grande parte das pessoas entende uma relação entre libertinos como uma relação sem regras, sem base sólida. Um oba-oba onde o Dominador faz o que bem entende porque não espera ter que justificar suas atitudes e onde a submissa faz o que bem entende porque não entende uma relação libertinos como uma relação que se deva levar a sério. 

 

As normas e as regras são necessárias e intimas de quem as vive. Elas vão sendo construídas com o tempo, nada nasce pronto. É aqui que entra a lealdade. Se não foi possível consolidar a relação embasada numa determinada ordem, é porque houve deslealdade entre as pessoas que se dispuseram viver esse tipo de relacionamento. Parto da premissa de que existem diferenças entre o discurso e prática, entre lealdade e confiabilidade em grande parte dos relacionamentos, por isso fracassam. 

 

Para manter o mínimo de estrutura de uma relação em que se considera praticas libertinas é importante considerar o cumprimento de regras construídas intimamente e as externas de modo a não agredirmos nossos princípios básicos de sobrevivência. 

 

Mas há a libertinagem sem parâmetros... essa não vale à pena... só prá começar um libertino sem regras morre de AIDS. Mas ele pode viver uma libertinagem mesmo que esta esteja inserida em um grupo com regras... Pois o mundo depende de regras inclusive para sua sobrevivência. E a principal regra é que para que ele seja libertino ele precisa da ACEITAÇÃO da outra pessoa em lhe receber... (Switcher 4)

 

A questão da aceitação no grupo é importante para a vivência de um libertino. O fato de Sade ter batido de frente com tais princípios fez com que ele passasse anos de sua vida em cárcere privado e não é o que buscamos hoje quando decidimos vivenciar práticas libertinas dentro do BDSM. Não vamos transgredir regras que ferem princípios básicos. Um libertino pode estar inserido no BDSM, seguir regras e viver também a sua liberdade em grupo. 

 

Visão atualizada do mundo libertino inspirado em Sade. 

 

A foto acima ilustra uma cena inconcebível na nossa sociedade de hoje. Porém no recôndito de sua particularidade podem existir os grupos fechados e terem suas próprias regras que devem ser reconhecidas por seus pares. Deve haver o respeito às diferenças de cada um, o modo de pensar de ser e de viver de cada grupo, subgrupo ou mesmo de indivíduos. 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Problemas sempre existirão, desafios a serem superados também. O que não se deve é esmorecer por conta de estereótipos criados para minar os propósitos de quem decide ter um modo de vida diferenciado do que a sociedade protagoniza. Para isso a fala da submissa 3 esclarece bem esta questão:

 

O problema é o medo, os tabus, a falta de informação e a hipocrisia... medo da rejeição... enfim, tantas coisas... fazem com que as pessoas adormeçam seus próprios desejos, ideias, sentimentos e se moldem em determinada sociedade, que no caso da nossa, é totalmente hipócrita e baseada em comercias de margarina... Acredito que a libertinagem esta dentro de cada um, cada um tem seu jeito de vivê-la de encará-la... o que é uma babaquice pra mim, talvez possa ser algo que lhe baste... não podemos fazer de nossos desejos, algo como um bolo de caixinha que se compra em supermercado e tem o passo a passo... a vida não é feita de receitas (Submissa 3).

 

É preciso que se unam forças e não desagreguem os grupos de pessoas de personalidade singular. “Mesmo sem um corpo libertino TODOS temos mentes libertinas... “ (Switcher 4) e acrescenta:

 

Já não chega os dogmas e a sociedade que sempre tentam nos aprisionar. Porque a questão libertinagem é algo inerente do BDSM, ou seja: somos libertinos.  Em uma confraria verdadeira, é possível viver a libertinagem sem que os valores essenciais se percam (Switcher 4).

 

O que podemos tirar de bom nos princípios das obras de Sade adequando à nossa realidade hoje é a negação de dogmas de moralidade excessiva, não básica; é a liberdade de se viver a sexualidade com responsabilidade, não baseada em desatinos; é crença de que é possível ser e viver de forma diferente e prazerosa sem ostentar essa diferença e atrair para si toda sorte de maledicências. 

 

Sade foi um expoente da literatura para definição do conceito de libertinagem. Pesquisar na literatura, confrontar com as opiniões das pessoas foi uma prática gratificante que me permitiu conhecer um pouco mais deste instigante tema. Espero que essas contribuições possam ser de valia para os adeptos e simpatizantes do BDSM de modo a encarar a libertinagem sadia de forma consciente e no mínimo digna de respeito!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

LAN@. A LIBERTINAGEM E A LEALDADE.  Acesso em 16 de janeiro de 2007 

SADE, Marquês de. A Filosofia na Alcova: Trad. Augusto Contador Borges. SP: Editora Iluminuras, 1999.

SALIBA, Elias Thomé. Literatura na alcova. In: Novos estud. - CEBRAP.  São Paulo,  n. 76,  2006.  Acesso em: 02  Mar  2007.  

Vigário. Donathein Alphonse Fançois. Acesso em 18 fev 2011

s/a. Libertino – Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Acesso em 10 fev 2011


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