Malucas por esmalte

O arsenal inventado para servir à vaidade feminina é imenso e criativo. Todos os dias somos atiçados com zilhões de itens que promete nos deixar magras, sedutoras, jovens e modernas. Mas entre as estratégias que nos levam à boa autoavaliação diante do espelho, uma merece atenção por ter como atributo extra a graça de se parecer com uma brincadeira, dessas renováveis a qualquer momento e de custo relativamente baixo. Estou falando do esmalte, claro, o verniz de instigante cheiro industrial e textura aderente que deixa as mãos das mulheres mais sedutoras e lúdicas.

 

Desde o Egito Antigo, onde a mania teria começado há 3.500 a.C., nos divertimos colorindo as unhas. A indústria de cosméticos captou essa paixão e não para de nos provocar com novidades mais e mais ousadas. Sim, amamos os vidrinhos coloridos e queremos nos entregar a todas as tentações, seja uma intrigante unha de pelúcia (simula pelo, já viu?), um black satin Chanel, um sazonal azulejo português, um nostálgico branco corretivo-escolar (saturado de pigmento), a falsa ingênua candy color (cor de doce)...Uauu!!!... Um estilo para cada balada, cada encontro, cada ocasião... Definitivamente, acabou a monotonia dos rosinhas e dos vermelhinhos.

E no embalo da esmaltemania começam a pegar no Brasil os nails bar ou esmalterias. Comuns nos Estados Unidos e na Europa, são espaços charmosos, especializados em mimar as mulheres enquanto elas curtem o ritual de tirar cutículas, esfoliar mãos e pés, aparar, lixar e, por fim, pintar as unhas. Champanhe, coquetéis, comidinhas finas, doces lights, música bacana e outras mordomias são oferecidas sem modéstia e, importante, sem o zuuuummm de secadores de cabelo dos salões de beleza, que por décadas foram os únicos templos das manicures e suas fanáticas clientes. Acrescente a esse cenário um cardápio de centenas de cores e marcas e você adentrará ao paraíso com as unhas lindas.

E chiquérrimas, diga-se, uma vez que a alta costura também está nos assediando com insistência e irresistíveis iscas. Gigantes da moda como Tom Ford, Chanel, Dior, Marc Jacobs, Dolce & Gabanna e Yves Saint Laurent disputam nossas mãos com outras grifes igualmente nobres, a exemplo de Top Beauty, Revlon, M.A.C., Instadri, O.P.I., Nars... Assim, o mercado brasileiro que até há pouco tempo só conhecia dois ou três nomes – Risqué, Colorama, Impala – virou um caleidoscópio de opções... Nunca fomos tão felizes.


MAS AQUI É O REINO DE K@...

Se o Reino de K@ fosse de fato um harém perdido no Egito Antigo, provavelmente as subs de preto, que são as escravas da classe baixa, estariam usando esmalte preto ou no máximo, marrom. Já a Sub de Vermelho e a Sub de Laranja, representantes das castas privilegiadas, estariam ostentando unhas em tons de vermelho, como faziam Cleópatra e Nefertiti. Na China, as cores também indicavam a posição social. Vermelho e metálico eram restritos à nobreza. Ainda vasculhando a arqueologia dos esmaltes, na Roma antiga a prática mais usada era o polimento com algum material abrasivo.

Porém, estamos no início do Século XXI e mesmo com a variedade de adoráveis frasquinhos coloridos que nos pedem em namoro a cada visita à manicure, a única cor autorizada no Reino de K@ é o branco-renda. E ai da escrava que for flagrada usando uma cor diferente. O Mestre K@ é rígido com isso, embora recentemente tenha flexibilizado essa regra. Desde outubro, quando ele criou o Treinamento Público de Escravas, que teve a podolatria como tema, suas mocinhas estão livres para usar as cores de preferência, desde que enviem fotos das mãos e dos pés para Ele conferir (pode apostar que essa súbita generosidade não vai durar muito e nem será para todas).

Obviamente esse capricho do Mestre K@ não tem relação com o histórico preconceito moral que sofriam as mulheres ocidentais do século passado que ousavam desfilar por aí com longas unhas vermelhas. Sim, porque por várias décadas “mulher honesta” usava cores claras, enquanto os sensuais rubros eram típicos de putas, biscates (piriguetes, como queira) e adúlteras. Pois é, para chegar à febre multicolorida de hoje, o esmalte percorreu um longo caminho.


DEU NO QUE DEU

Até o Século XIX, as novidades eram escassas, quase inexistentes. Um óleo perfumado de vez em quando, um polimento com couro para dar brilho e uma lima para manter as unhas curtas e discretas. O cenário começou ganhar vida nova, em 1830, com a invenção do palito para empurrar a cutícula. Apontado como o primeiro acessório de manicure, ele foi criado pelo físico Dr. Sitts, inspirado nos palitos de dentes. Se você acha esse procedimento rude demais, saiba que antes dele as cutículas eram removidas com tesoura, ácido e metal. Hoje, curiosamente, o jeitinho brasileiro de fazer as unhas, com cutícula zero, é admirado no mundo inteiro, assim como a brazilian wax, depilação íntima radical, tão apreciada no SM.

Outro evento importante aconteceu em 1910, quando foi fundada a pioneira Flowerey Manicure Products, empresa que produzia a lixa metálica Emery Board, um sucesso comercial da época. Ainda no começo do Século XX, enfim, as fórmulas coloridas tão prestigiadas no Egito Antigo e na China de 3.000 a.C., voltaram a embelezar as mãos femininas, embora a fixação dos produtos não passasse de algumas horas. Tudo era extremamente rudimentar, até que uma contribuição de efeito veio de um segmento inesperado. Em 1925, a indústria automobilística, então mergulhada em pesquisas para pinturas de carros, ofereceu a primeira solução próxima dos esmaltes que conhecemos hoje.

Era um verniz rosa-claro aplicado apenas no meio da unha... Tá bom, vá, tosco também... Mas um avanço e tanto, pois a partir dele os fabricantes engataram a quinta marcha e passaram a despejar seus vidrinhos mágicos mundo afora, inclusive em Hollywood, onde brilhavam estrelas de primeira grandeza, como Rita Hayworth, Gloria Swanson e Jean Harlow, três fãs das unhas coloridas. E quem acelerou o processo foram os irmãos Charles e Joseph Revlon, em 1932. Eles bancaram o desenvolvimento de um esmalte diferente, com brilho e variedade de cores para ser aplicado na unha toda. Nascia a marca Revlon que ensinou as mulheres a combinar o esmalte com o batom.

Dois anos depois, foi a vez da californiana Anna Hamburg dar a sua colaboração: ela patenteou a unha artificial que podia ser afixada sobre a unha natural sem danificá-la. Quase simultaneamente, o dentista Maswell Lappe anunciou a Nu Nails, versão postiça para esconder unhas roídas, e a Max Factor, que anos antes já tinha se aventurado na criação de um pó para colorir, apresentava o seu Esmalte Líquido.

Deu no que deu. Nos anos 70 a irreverência pegou de vez e passamos a viver um delicioso vale-tudo que rima ousadia com tecnologia. Portanto, querida, quando a sua manicure perguntar se você vai querer redonda ou quadrada, francesinha ou inglesinha, claro ou escuro, cintilante ou cremoso, decorada ou lisa, lembre-se que essa loucura tem milhares de anos. E se esbalde com os vidrinhos transbordantes de vida.

por: klarissa { K@ } 


Artigo é baseado em diferentes fontes de pesquisa, exploradas livremente pela autora, sem o compromisso de realizar um trabalho acadêmico sobre o assunto.

Principais fontes:
http://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/historia-do-esmalte.htm
http://lcg-esmalterapia.blogspot.com.br/p/historia-do-esmalte.html
http://esmalteriadapriscila.blogspot.com.br
http://pesperfeitos.com/o-encantado-mundo-dos-esmaltes/


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