O Castigo Inevitável

Ela morava naquele harém há algum tempo. Amava o Faraó muito intensamente e sofria em ter que dividir "seu" faraó com as outras odaliscas. Cumpria sempre suas obrigações para agradá-Lo e obedecia à Senhora superiora sempre com dedicação. Mantinha seus afazeres em dia e contribuia muito para o conforto do Faraó e das Senhoras superioras. Estava sempre alegre e muitas vezes se punha a cantar para externar e felicidade que sentia em servir ao seu Faraó. Todas as outras odaliscas viam nela um exemplo de submissão e alegria em servir. Quase sempre pediam-lhe conselhos e opiniões no que vestir ou usar para alegrar o Faraó. Muitas a invejavam, outras se admiravam com tanta submissão.

Era uma das mais antigas no Harém,

ainda quando este estava se formando, e viveu todo o crescimento com a chegada das novas odaliscas. A cada uma que chegava, ela tinha sempre uma palavra de amizade e sempre solícita, ajudava em tudo que podia.

Participava sempre de todas as atividades e fazia questão de manter o Harém sempre num clima de tranquilidade e amizade. Todos os dias se levantava e começava seus afazeres demonstrando sempre muita excitação em estar ali. Em ser cativa de seu Faraó. Ansiava pelos momentos em que Ele Lhe daria a honra de mantê-la a Seus pés, de dedicar um pouco da Sua atenção. Eram momentos de intensa felicidade para ela e mesmo que não fosse servir intimamente, se comprazia em estar ali ao Seu lado. A emoção era grande, muitas vezes as lágrimas teimavam em cair de seu rosto. Mas nada tirava dela aqueles momentos sublimes.

À Senhora superiora, exigente e muito disciplinadora, sempre oferecia seus préstimos e procurava atender a todos os desejos dela, mesmo que à custa de sofrimento. Sabia que tudo era para o seu crescimento e para a felicidade de seu Faraó. Ele... sim pensar Nele, sempre fazia seu coração pular no peito e transbordar de amor. Adorava-O como a um deus. Mas era o seu deus de verdade, não via mais a vida sem Ele. Sofria com a ausência, às vezes longa, de seu Faraó e não poder vê-Lo, estar com Ele, servi-Lo, abalava suas estruturas e deixavam-na triste. Sentia ciume pela atenção Dele ter de ser dividida com as outras tão belas odaliscas. Sabia quais eram as preferidas e isso a feria por dentro. A tornava insegura e temerosa. Às vezes retraía-se em seu canto para sofrer sem que ninguém percebesse. Outras vezes, reclamava a atenção do Faraó, tornava-se mimada e questionadora, aumentando ainda mais o Seu sofrimento. A Senhora, para poder disciplinar ainda mais, a deixava de castigo sem contato com Ele por vários e vários dias transformando-a numa escrava triste e infeliz.

De repente se deu conta que o Harém estava cheio de meninas lindas e dedicadas. cada uma com sua marca única...todas com grande desejo de servi-Lo com amor e dedicação. Percebeu a alegria Dele...viu os olhinhos brilhando de desejo e tesão por cada uma delas. Sentiu-se rejeitada, preterida. Ficou triste e amarga. Reclamava sempre...cobrava mais ainda. Já não tinha vontade de servir com dedicação...queria chamar a atenção de seu Faraó. Seu desejo apagou..a motivação deu lugar à sentimentos de insegurança e isso a levou a cometer erros e mais erros. Mas suas reclamações não adiantavam, não surtiam o efeito desejado. Quando estava com o Faraó, já não era tão intensa e tornou-se uma péssima companhia.

Passou a ser uma escrava dominada pela tristeza. O tempo passou. Haveria uma festa em comemoração ao aniversário do Faraó e todas estavam alegres e empenhadas em tornar esse dia o mais festivo possível e pretendiam que o Faraó tivesse a melhor festa de aniversário de Sua vida. Ela, triste e desmotivada, buscou forças e tentou entrar no clima de festa em que todas se encontravam. Todas cantavam, ensaiavam danças sensuais para o Faraó e enfeitavam todo o salão onde seria realizada a festa para Faraós de todas as regiões. Nada poderia dar errado. Teria de ser uma festa inesquecível e invejada por todos, afinal o harém de seu Faraó tornara-se o mais famoso da região, por causa das mulheres lindas que moravam ali.

Cada uma preparava seus trajes solenes, um mais lindo que o outro, aprovados pelas Senhoras superioras, os adornos e enfeites eram escolhidos com atenção. Cuidavam da pele, das unhas, dos cabelos..Todas com amor e alegria. Nenhum detalhe escapava de ninguém. Mas ela não demonstrava a mesma euforia das outras.

Num determinado momento, a Senhora superiora reuniu todas as meninas e deu o seguinte recado:

- Todas vocês sabem que estamos em festa pelo aniversário de nosso tão amado Faraó. O que preciso dizer é que estamos recebendo uma nova escrava aqui e que Ela será a companhia direta do Faraó na grande festa. Ela será preparada com muito esmero para fazer jus à honra de ficar ao Seu lado nesse dia. Ordeno que todas vocês se empenhem nessa tarefa e que estejam à disposição dela para as suas necessidades.

Isso causou um tumulto geral...um falatório e gritaria muito grandes. A Senhora ordenou que se calassem e que trabalhassem conforme suas ordens. Ela, num canto, com os olhos cheio de lágrimas e o coração dominado pela mágoa, a muito custo começou a cumprir as ordens; mas seus pensamentos não a deixavam em paz. O ciúme tomou conta dela. "Porque não tinha sido ela a escolhida?" "Porque uma novata era a preferida do Faraó agora?"

Um sentimento de revolta muito grande surgiu e transformou a mágoa em raiva. "Isso não vai ficar assim". Ela teria que fazer alguma coisa e enquanto deixava seus pensamentos fluirem, obedecia a tudo como um fantoche. Não sorria mais...nem cantava...apenas obedecia. A Senhora superiora que já a conhecia tão bem, achegou-se perguntando o que ela tinha. Ao responder que não tinha nada a Senhora Lhe disse:

- Pois bem, quero que você fique ao lado da nova escrava para tudo que ela precisar. Quero que cuide para que ela esteja impecável e invejável no dia da festa.

Indignada ela simplesmente acatou e não disse uma palavra. Mas notou um sorriso irônico no rosto da Senhora. Engoliu em seco e voltou à Sua tarefa. Já tinha um plano em mente. Seguiu cumprindo todas as ordens. Ajudou na limpeza, na decoração, nos ensaios das danças. Empenhou-se em tornar o palácio o mais belo palácio de todos. E os dias se passaram.

No dia da festa, o harém despertou cedo e não se podia negar que todas estavam felizes e ansiosas pela chegada da hora da festa. O dia prosseguiu entre tantos preparativos e assim como tinha sido ordenado a ela, deixou a nova escrava linda e a altura do grande Faraó...o seu Faraó.. A nova escrava, enquanto ia sendo preparada por ela, fazia-lhe elogios e lhe agradecia por tudo. Ela, calada, nada respondia, apenas sorria. Estava tão controlada que ninguém desconfiou de que ela não estava bem. A noite estava chegando e assim que a nova protegida do Faraó estava pronta, a Senhora superiora a dispensou, dizendo que deveria se preparar também para a festa.

Saiu e assim que se viu num canto sozinha, fingiu desmaiar. Ficou ali algum tempo até que alguém percebesse e chamasse a Senhora. Com a ajuda de alguns sais, conseguiu reanimá-la, mas ela ficou prostrada, sem movimentos e com a voz embargada e num sussurro disse que não estava se sentindo bem. Magistralmente interpretou o papel de doente grave o que causou um corre corre no harém. Fingia não enxergar..não reconhecer onde estava e fingia grandes delírios. Chamava pelo Faraó a todo instante. Tentavam de todas as formas ajudá-la mas não conseguiam. Ela ainda não tinha alcançado seu intuito e continuava a fingir seus ataques. Chamaram o curandeiro da época que não encontrou indícios do que a estava deixando daquele jeito.

Ela continuava a gritar de dor...às vezes fingia desmaiar de novo. Tudo fazia parte de seu plano para estragar o momento feliz daquela nova protegida de seu Faraó. Todas já estavam prontas...lindas e perfumadas...a preocupação era geral. O curandeiro usou tudo que sabia para tentar fazê-la melhorar, mas tudo foi em vão. E o que ela mais queria aconteceu - o Faraó foi chamado e chegou logo em seguida. Muito preocupado, abaixou-se sobre ela e demonstrou todo o cuidado que tinha com Suas escravas. Ela tremeu, mas segurou-se e manteve o plano. O Faraó ordenou que todos se afastassem e pegou-a no colo, levando-a para o lugar em que ela dormia. Acomodou-a com cuidado e tentou reanimá-la. O tempo foi passando e ela não voltava a si. Até que Ele tomou a decisão que a deixou excitadissima e feliz. A festa deveria ser cancelada. Que os serviçais responsáveis se pussessem a postos na entrada do palácio e com pedidos de desculpas em nome do Faraó avisassem aos convidados viajantes que não haveria mais a festa. Que um imprevisto grave havia acontecido e a festa estava cancelada. O Faraó sabia que isso cairia como uma bomba pela região, mas a Sua escrava era mais importante do que qualquer coisa.

Tudo foi feito como Ele ordenara e enquanto isso eram redobrados os cuidados com a escrava doente. O dia surgiu com a imagem do Faraó aos pés da escrava, onde tinha passado a noite em claro cuidando dela. Sua preocupação era evidente e com isso ficou evidente também à escrava invejosa e ciumenta o quanto o Faraó havia se preocupado e sofrido. O quanto Ele tinha se dedicado aos cuidados com ela. Na hora sentiu um aperto no coração e o remorso tomou conta dela. Estava envergonhada e percebeu que continuava infeliz. Sentiu que o que tinha feito serviu apenas para criar uma mancha no seu carater. Nunca mais conseguiria se livrar dessa atitude mesquinha e desonesta.

Os dias se passaram e tudo foi voltando ao normal. O Faraó ainda se desdobrava em cuidados com ela e a cada carinho recebido, ela se constrangia e mais se entristecia. Percebeu que sua atitude não lhe tinha trazido felicidade e sabia também que não mudaria o desejo Dele em ter a nova escrava como Sua companhia mais constante. A tristeza e o remorso foram apagando cada vez mais o brilho daquela escrava antes feliz e motivada. Não conseguia se recuperar da depressão em que se tinha colocado, deixando todos ainda mais preocupados. Até que em um momento de impulso pediu para ter um tempo com o Faraó. Atendida em seu pedido, ao entrar no quarto Dele, se jogou aos Seus pés chorando copiosamente e pedindo perdão por tudo que tinha feito.

O Faraó sem entender nada, perguntava a ela o que estava acontecendo e ela aos borbotões gritava a Ele tudo que tinha feito. Ele, incrédulo ordenou que ela repetisse tudo e assim que ela o fez, Ele a empurrou para o lado e de pé, atônito dizia não acreditar no que ela dizia e perguntava o porque. E ela envergonhada disse que o ciume a torturou o tempo todo e que ela não aguentava ter de dividi-lo com as outras escravas.

O Faraó ainda atônito, chamou a Senhora superiora e ordenou que ela reunisse todas as escravas no salão principal que Ele tinha de falar com todas. Assim que ela saiu, Ele serviu-se de um copo de agua, respirou fundo, levantou-a pelo braço e a arrastou para o salão principal. Segurando-a ainda pelo braço, esperou que todas as escravas estivessem reunidas ali e disse:

- Esta escrava não é mais digna de pertencer ao meu harém. Será levada por alguns dos meus soldados para bem longe das divisas do castelo e contará apenas com sua própria sorte.

A essas palavras o tumulto se estabeleceu. Todos se perguntavam o que tinha acontecido. O Faraó, pedindo silêncio explicou tudo que a pérfida escrava havia feito o que causou mais indignação em todos novamente. O Faraó, ignorando as súplicas da escrava, a entregou à Senhora superiora e disse:

- Mande-a a embora e a use como exemplo para que todas as escravas aprendam com esta triste lição

E assim foi feita a vontade do Faraó. A escrava foi levada para longe e abandonada à propria sorte. Não se soube mais dela e o palácio pouco a pouco foi recuperando a sua rotina.

por: karla { K@ }


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