Corrida de rua e BDSM

Apesar de ter ido deitar quase às 2 horas da manhã, acabei acordando pouco mais do que seis e meia de um domingo, que amanheceu com um forte sol e um céu lindo, por sinal aqui em Brasília, em dias assim, o céu parece o mar colocado sobre nossas cabeças. Tinha colocado o despertador para as 7h45, uma vez que a corrida estava marcada para as 9h da manhã.

Depois de ficar um pouco na cama tentando pegar no sono novamente, liguei a TV e procurei por algo que pudesse prender minha atenção, mas foi em vão. Então resolvi mudar a tática. Levantei e comecei os preparativos para ir a uma corrida de rua, tipo de evento que nunca havia participado, mesmo estando perto de completar 47 anos.

Primeiro me pesei, talvez na esperança de que algo pudesse ter melhorado, afinal acordei motivado, bem antes do horário programado, mas a balança foi cruel! Dois quilos a mais. Não sei onde isto vai parar. A verdade é que logo pensei: três sacos de arroz pendurado ao corpo, que subtraído do meu peso atual, me daria o peso que eu tinha, quando andava de bicicleta há dois anos, antes de tomar um tombo e abandonar minha "carreira".

Passado o susto, coloquei a bermuda de lycra e fui à geladeira pegar as coisas para preparar um café da manhã. Engraçado, nesta hora a reação é sempre a mesma, melhor comer algo bem leve: uma banana, três biscoitos de água e sal e suco de frutas de caixinha. Como se o vilão de tudo fosse o pobre do café da manhã e não aquilo que comemos nos outros 364 dias do ano. Fazer o que! Fácil de nos enganarmos, não é mesmo?

Acabei de tomar o café e fui me arrumar: passei protetor solar 30 em quase tudo; coloquei as meias e o tênis, que comprei novinho para a corrida, com a esperança que ele pudesse facilitar a minha vida. Coloquei a camisa e chegou a hora de prender o número 1088 na mesma. Imaginem! No kit vieram quatro alfinetes pequenos, daqueles usados em fralda de criança, há muito tempo, acho que hoje devem-se usar fitas. A verdade é que enquanto espetava o alfinete na camisa, tomando cuidado para não espetar o meu dedo, logo me lembrei do SM. Como é versátil este objeto, na camisa para um fim pacífico, nos pezinhos das minhas escravas, um convincente instrumento de torturas, rsss sádicos. O restante foi fácil colocar: o boné, os óculos escuros e uma fitinha branca no pulso.

Ao chegar ao lugar marcado, surpreendi-me com a quantidade de pessoas que já estavam lá, apesar de faltar quase uma hora para o início do evento. Inevitável deixar de pensar: quantas pessoas ansiosas, que como eu não tinha conseguido dormir. Peguei o chip - responsável por marcar o tempo gasto na corrida -, coloquei no tênis e fui orientado quanto ao meu lugar de largada.

Desta vez, não pude deixar de me lembrar do Reino de K@. Não é que existiam quatro cores de fitinhas: as pretas, que indicavam os corredores do Pelotão Quênia, não preciso explicar que eram os melhores e largariam à frente de todos. Curioso, não acham? Se correm mais, deviam largar por último, mas não questionemos o sistema; depois tinha o Pelotão Verde, talvez algo ligado a ecologia não sei; o Pelotão Azul, que nada me ocorreu para justificar a cor e por último a turma da fitinha branca, sim os Iniciantes, lá atrás de tudo. O branco deve ter sido escolhido por representar a esperança que aquela galera do final da fila precisava ter para enfrentar o desafio.

Fiquei ali observando tudo e todos. A organização impecável, som contagiante, banners, tudo sinalizado, sem filas, cestos de lixos espalhado por todos os lugares. Vinte minutos antes da largada, uma aulinha de alongamento e aquecimento. Tudo pronto para o início. Cerca de 5.000 corredores, segundo o locutor. A divisão de classes que lembrava o Reino, com as cores trocadas, fez com que eu demorasse cerca de 3 minutos para conseguir transpor a largada, uma vez que estava no meio do pelotão. Engraçado! O locutor incentivava para que todos corressem e, por algum momento, pensei estar participando de uma Caminhada. Era tanta gente parecia shopping na véspera do dia das mães ou de natal, impraticável!

Cerca de uns duzentos metros depois da linha de largada comecei, finalmente, a minha sessão SM, surgiam os primeiros espaços para fazer o que tinha me proposto: correr. A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, tinha quatro faixas interditadas e ainda formou-se uma fila de quase 2 km de corredores. As camisas eram laranja e formavam um lindo tapete contrastando com o preto do asfalto.

À medida que a prova ia se desenrolando, meu sofrimento ia aumentando e minhas reflexões se intensificavam. Uma tática para o tempo passar mais rápido e completar a prova. Vários participantes passavam por mim e acredite, eu também conseguia fazer ultrapassagens. Passei por uma mulher grávida, devia ter cerca de seis meses, o peso extra que ela levava não era tanto quanto o meu, mas certamente muito valioso. Fosse homem ou mulher, logo nasceria um futuro campeão.

Passou por mim, lentamente, um senhor de cabelos brancos, talvez 65 anos, não sei. Engraçado eu achava que ele estava lento, mas e eu então? Devagarzinho foi embora, só o vi, novamente, depois do final da prova. Na ocasião, ele parecia tão bem e recuperado que senão o tivesse visto correndo, afirmaria que ele estava ali apenas paquerando as menininhas. Ahhh, quanto mulher bonita, como o exercício faz bem para a saúde.

Outras chamaram a minha atenção. Algumas mingnonzinhas pareciam tão frágeis. Aquelas com o tipo físico mais avantajado, inclusive tinham tudo para serem mais lentas, mas que nada! Muitas também me passavam.

Vi casais correndo tranqüilos e conversando animadamente, pareciam falar da noitada anterior. Tinham amigos correndo em grupos e se divertindo. Eu acabei correndo sozinho. Em meio à multidão não achei o me amigo, que me convenceu de participar do evento. Só o vi na chegada, incentivando quem cruzava a linha de chegada. Ele tinha ido para a gandaia, na noite anterior, e perdeu a hora. Havia aqueles que gostam de aparecer, com faixas, roupas bizarras, bonezinhos diferentes e também não podia deixar de ter aquelas mulheres toda produzida, de brinco, viseiras, óculos escuros, pequenos tops, afinal se usassem aquela camisa básica – distribuída a todos participantes - não chamaria a atenção naquela manhã.

Avistei a placa de 4 km, cerca de 200 metros a minha frente. A esta altura o grupo já estava com os ânimos mais contidos. As piadinhas e cumprimentos efusivos, dos primeiros metros, já não existiam mais. A respiração, para a grande maioria, onde eu me incluo, já era tão acelerada que preferi nem pensar como aqueles corações deveriam estar sofrendo para dar conta do recado. Como é duro tentar fazer algo sem estar preparado.

A esta altura, não podia deixar de observar algumas pessoas que já perdiam o ritmo a minha frente. Para minha surpresa, muitos com pulseirinhas verdes e azuis, não cheguei a ver a turma do Quênia, mas aí já seria demais! Engraçado como o ser humano, talvez por auto-afirmação, tenha a necessidade de mostrar o que não é. Recordava do rosto de um ou outro antes da largada: cabeça erguida, nariz empinado, será que por terem pulseirinhas mais escuras do que a turma lá de traz?

Certamente, foram com muita sede ao pote. Por sinal, não é que acontece com uma significativa maioria? Que o digam os regimes das segundas, por falar nisso, amanhã vou começar o meu. Pensando bem: melhor não! Fiz muita força hoje, melhor me alimentar bem esta semana, para não ficar doente, afinal o ano ainda está começando e vou ter muito tempo para me preocupar com isto.

Foram tantos pensamentos, que logo avistei a faixa de chegada. Completei a prova em 36 minutos e 17 segundos e sequer andei. Como o tempo passa, quando estamos ”refletindo” sobre a vida alheia rsss, mas também dei bons exemplos. Incentivei aqueles que pensavam em desistir no meio do caminho. Parabenizei um adolescente, que caiu logo no começo e chegou um pouco depois de mim. Aprendi a olhar as pessoas com mais admiração e respeito. Entendi que quando alguém quer muito algo, os limites se expandem. Percebi que, às vezes, não conhecemos muitas das pessoas próximas, para minha surpresa encontrei alguns outros colegas de trabalho correndo. Olha que trabalhamos no mesmo andar, conversamos vez ou outra na hora do café e sequer sabíamos que íamos participar do mesmo evento.

Fim, hora de ir embora! Cheguei em casa e a primeira providência foi tomar um bom relaxante muscular, sei que amanhã vai doer tudo, afinal até as escravas bem masoquistas o tomam, depois de uma sessão bem hard, não vai ser diferente comigo. Antes de entrar no banho, olhei o celular e uma mensagem na caixa de entrada. Não posso esconder que imaginei que fosse algum incentivo de uma sub mais eufórica. Não era! Para minha surpresa a mensagem era da organização da prova.

"Parabéns pela corrida. Seu tempo corrigido foi de 33 minutos e 17 segundos" - já descontado aquele tempo inicial que perdi até passar na linha de largada. Pasmem! Confesso que foi bem melhor do que eu podia supor, tinha dúvida se completaria a prova. Incrível como o mundo está rápido! A mensagem foi postada exatamente no final da corrida. Já sei! Vão me perguntar qual a minha colocação. Bem, não tenho a menor idéia. Pelo resultado avalio que devo ser fundista. Minha colocação foi próxima lá no "fundo" da fila! O importante foi que me superei.

Que tal encontrar uma motivação para se exercitar também? Sei que vai dizer: não dá, é difícil, a idade não ajuda, o peso atrapalha, não tenho lugar para praticar, entre tantas outras justificativas! Caso se motive, vou deixar uma dica: não invista num tênis novo. Constatei que eles não funcionam, por mais modernos se sejam. A única coisa que precisa é atitude positiva!


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